segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O CÃO SEM PLUMAS







O Cão Sem Plumas

(João Cabral de Melo Neto)




A cidade é passada pelo rio

como uma rua

é passada por um cachorro;

uma fruta

por uma espada.




O rio ora lembrava

a língua mansa de um cão

ora o ventre triste de um cão,

ora o outro rio

de aquoso pano sujo

dos olhos de um cão.




Aquele rio

era como um cão sem plumas.

Nada sabia da chuva azul,

da fonte cor-de-rosa,

da água do copo de água,

da água de cântaro,

dos peixes de água,

da brisa na água.




Sabia dos caranguejos

de lodo e ferrugem.




Sabia da lama

como de uma mucosa.

Devia saber dos povos.

Sabia seguramente

da mulher febril que habita as ostras.




Aquele rio

jamais se abre aos peixes,

ao brilho,

à inquietação de faca

que há nos peixes.

Jamais se abre em peixes.




Minha Casa




A minha casa é meio-Frida Kahlo:
As cores se misturam e se espalham
Aleatoriamente nas paredes,
Em verdes e azuis, roxos, laranjas,
Em brancos, amarelos e vermelhos.

Cortinas não tem forros; esvoaçam
Ao vento que adentra e as agita,
E espalha o cheiro doce do incenso
Que eu queimo pela casa todo dia.

A minha casa é simples, e aqui dentro
Somente os objetos que amamos:
Presentes e lembranças de viagens,
E coisas que gostamos e compramos.

Por sobre a escadaria de madeira,
As mãos dos marceneiros já idosos...
A maioria deles já se foi,
Deixaram suas presenças no meu chão.

Sob esta escadaria, hoje estão
Os livros que mais amo, e que não doo;
De vez em quando os leio, e então me entrego
A branda realidade dos seus voos.

O meu jardim é uma parafernália
De plantas que eu encontro pela rua,
E ao plantá-las, raramente brotam
Onde eu as plantei, mas onde querem.

E Burle Marx, acho, se revira
Na tumba onde dorme, ao contemplá-lo!
Pois nada nesse canto é ordenado,
E nada obedece seus espaços!

Cresce uma pitangueira no canteiro,
As rosas se debruçam sobre o muro
E escolhem enfeitar outros jardins;
O meu bonsai cresceu trinta centímetros,
O cedro se encheu de passarinhos
Que fazem os seus ninhos por ali;
Me acordam de manhã, sempre bem cedo.

Pelo gramado, há falhas onde a grama
Foi arrancada pelas patas ávidas
Dos meus cachorros; ele se divertem
Ao derraparem sobre as folhas verdes.

Na minha casa nada é muito certo:
Eu desafio o rígido bom gosto
E rio das suas leis – desobedeço
O que já foi determinado e posto.





Tons de Primavera








quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Vá Comprar Uma Laranja!







Cheguei ao ponto de ônibus perto da minha casa, e encontrei novamente aquele senhorzinho, também esperando pelo raro evento de um transporte de passageiros aqui na minha rua – o que só acontece a cada uma hora. Nos cumprimentamos, como sempre, e ele começou a puxar assunto. Não sei por que, mas as pessoas geralmente puxam assunto comigo – mesmo eu tendo essa cara não muito amigável. 

Começamos a conversar sobre os problemas de água em Petrópolis e nas dezenas de condomínios de luxo que estão construindo em Itaipava, Corrêas, Nogueira e outros locais. Nos perguntávamos se haverá água para toda essa gente, se já está começando a faltar para nós. Falamos também das chuvas que estão rareando cada vez mais. Falamos do aumento de temperatura dos últimos anos.

De repente, ele apontou para a ladeirinha que conduz à minha rua, e perguntou: “Você mora ali?” eu disse que sim, e ele me perguntou se eu tinha conhecido um senhor que morava ali e que morreu recentemente. Respondi: “Sim, ele era meu vizinho. Morava quase em frente à minha casa!” E ele começou a enumerar algumas pessoas que ele conhecia, e que tinham morrido. Lamentamos por eles. 

Não entendo por que lamentamos pelos que já morreram, se não sabemos o que há do outro lado, que pode até ser bem melhor do que o que temos aqui, ou então, se não há absolutamente nada, é aí que eu acho que deveríamos lamentar menos ainda. Mas a gente diz de quem morreu: “Coitado! Que descanse em paz!” Como se estarmos vivos fosse alguma espécie de presente, e a morte, uma desgraça. Estar vivo é vencer, e morrer, é perder. Será?

Bem, mas meu amigo e eu continuamos a nossa conversa, e de repente, ele começou a dizer algo, e uma vozinha lá de cima sussurrou em meu ouvido: “Escute com atenção, sua idiota. Isso é pra você!” Ele disse: “É... ninguém pode prever esse tipo de coisa... a morte, você sabe. Eu, toda vez que tenho vontade de comer uma laranja, por exemplo, eu vou lá fora, compro uma e como, porque a qualquer momento, a gente está aqui e de repente... dá um estalo no coração e a gente vai embora.”

E eu pensei nas laranjas que ainda não comprei. Pensei em todas as laranjas que tanta gente deixa de comprar, por medo, preguiça, vontade de economizar, ou simplesmente porque acha que hoje não é um bom dia, porque está chovendo. E muitas dessas laranjas ficam para trás nas estradas das nossas vidas, apodrecendo inutilmente, e a nossa vontade de prová-las, que não foi jamais saciada, será a fome que sofreremos antes do nosso último suspiro.





quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Minha Casa







A minha casa é meio-Frida Kahlo:
As cores se misturam e se espalham
Aleatoriamente nas paredes,
Em verdes e azuis, roxos, laranjas,
Em brancos, amarelos e vermelhos.

Cortinas não tem forros; esvoaçam
Ao vento que adentra e as agita,
E espalha o cheiro doce do incenso
Que eu queimo pela casa todo dia.

A minha casa é simples, e aqui dentro
Somente os objetos que amamos:
Presentes e lembranças de viagens,
E coisas que gostamos e compramos.

Por sobre a escadaria de madeira,
As mãos dos marceneiros já idosos...
A maioria deles já se foi,
Deixaram suas presenças no meu chão.

Sob esta escadaria, hoje estão
Os livros que mais amo, e que não doo;
De vez em quando os leio, e então me entrego
A branda realidade dos seus voos.

O meu jardim é uma parafernália
De plantas que eu encontro pela rua,
E ao plantá-las, raramente brotam
Onde eu as plantei, mas onde querem.

E Burle Marx, acho, se revira
Na tumba onde dorme, ao contemplá-lo!
Pois nada nesse canto é ordenado,
E nada obedece seus espaços!

Cresce uma pitangueira no canteiro,
As rosas se debruçam sobre o muro
E escolhem enfeitar outros jardins;
O meu bonsai cresceu trinta centímetros,
O cedro se encheu de passarinhos
Que fazem os seus ninhos por ali;
Me acordam de manhã, sempre bem cedo.

Pelo gramado, há falhas onde a grama
Foi arrancada pelas patas ávidas
Dos meus cachorros; ele se divertem
Ao derraparem sobre as folhas verdes.

Na minha casa nada é muito certo:
Eu desafio o rígido bom gosto
E rio das suas leis – desobedeço
O que já foi determinado e posto.





terça-feira, 25 de outubro de 2016

Poupando a Alma




A gente vê uma formiguinha se afogando em uma poça; nossa primeira reação, se tivermos alguma solidariedade pelas outras criaturas, será salvá-la. E olhamos em volta a procura de um galhinho ou de uma folha que possamos usar para resgatar a formiga de uma morte terrível por afogamento, mas não achamos nada, e ela continua a debater-se no meio da poça. É urgente que algo seja feito, ou ela morrerá em poucos segundos. Sem hesitar, mergulhamos o dedo na água e a resgatamos.

O que poderá acontecer então? Esperamos que a formiga nos agradeça, ou demonstre respeito por nós devido a nossa atitude? Se esperamos que haja, da parte de uma formiga, qualquer tipo de reconhecimento, é porque somos insensatos. O máximo que poderemos conseguir, caso não sejamos espertos o suficiente para colocá-la no chão o mais rapidamente possível, é uma ferroada. Porque uma formiga sempre agirá conforme a sua natureza, aferroando tudo que ela considere uma ameaça. É típico das formigas agirem desta forma.

O mesmo acontece em relação a alguns seres humanos que, após receberem a nossa ajuda, nos retribuem com a ingratidão, ou pior ainda, com a indiferença. É da natureza deles que hajam desta forma. 

Porém, não é por isso que devemos permanecer ao seu redor, convivendo com sua indiferença ou levando ferroadas e amortecendo pontapés. Temos uma escolha: podemos sair de perto de pessoas assim. Podemos escolher poupar as nossas almas desta convivência onde um é o doador e o outro apenas recebe. 

Muitos dizem que, ao darmos alguma coisa, não devemos esperar nenhuma recompensa, mas recompensa, neste caso, não é bem a palavra; quem doa, quem ajuda, quem resgata, espera que pelo menos não sofra a ingratidão da indiferença, e que aqueles a quem ajudou, não se voltem contra eles sem motivo algum.

Acho que existe uma má interpretação das palavras que Cristo disse quando nos estimulou a oferecer a outra face. Oferecer a outra face é resgatar a formiga da poça d'água, mesmo sabendo que poderemos ser aferroados, mas não é deixar o dedo disponível para a formiga picar. É ajudar a quem precisa, mesmo que tenhamos sido magoados por esta pessoa, mas sem permitir que voltemos a ser magoados. 

Poupemos as nossas almas das convivências infrutíferas. Perdoemos, mas não continuemos nos expondo a relacionamentos dos quais só podemos esperar sofrimento, ingratidão e injustiça. procuremos nos relacionar com aquelas pessoas que realmente demonstram gostar de nós, da nossa presença, e que nos respeitam e admiram.




segunda-feira, 24 de outubro de 2016








Há os que chegam em silêncio,
Deitam os olhos sobre tudo
E saem sem nada dizer,
Sem nada sentir,
Sem nada trazer.

Há os que chegam de repente,
E trazem facas entre os dentes;
Ferem sorrindo,
Dão gargalhadas,
Saem contentes.

Há os que chegam sem querer,
São empurrados pela vida,
Trazem sementes,
Partilham almas,
Saem mais sábios.

Há os que chegam por escolha,
Bem conscientes,
Preces nos lábios,
Dentro do peito
Um “Obrigado.”

Vem todos pela mesma estrada,
Seguindo sempre as mesmas trilhas,
Trazidos pelos mesmos ventos...
Mas cada um vem diferente,
E cada um vai diferente.





A Farter







A farter
Is frequently someone 
Who thinks they should not refrain
Their natural physiological need
(Not even hiding their traces)
Until they find another one
Who farts in their faces.










ORLANDO






Trechos de Orlando, de Virginia Wolf




"Entre a felicidade e a melancolia não medeia espessura maior que a de uma lâmina de faca. "





"Enquanto a fama tolhe e constrange, a obscuridade envolve o homem como um nevoeira; a obscuridade permite que o espírito siga o seu destino, desimpedido."



"Nada, porém, pode ser mais arrogante, embora nada seja mais comum, do que assentar que de deuses só existe um, e de religiões nenhuma outra senão a de quem fala."



“A memória é a costureira, e uma costureira caprichosa. A memória faz a agulha correr para dentro e para fora, para cima e para baixo, para lá e para cá. Não sabemos o que vem a seguir ou o que virá depois. Assim, o movimento mais comum do mundo, como o de sentar-se à mesa e puxar o tinteiro, pode agitar mil fragmentos díspares e desconexos, ora brilhantes, ora embaçados, pendendo, flutuando, mergulhando, tremulando, como a roupa branca de uma família de 14 pessoas numa corda ao vento.”



“Ele descrevia, como todos os jovens descrevem, a natureza, e de modo a comparar o tom do verde precisamente com o que observava (e aqui ele mostrava mais audácia que muitos) a coisa em si-mesma, que acontecia ser uma moita de loureiro a crescer sob a janela. Claro que depois de tudo isso ele não poderia escrever mais. O verde na natureza é uma coisa, o verde na literatura era outra. Natureza e literatura parecem ter uma natural antipatia: aproxime ambas e elas se despedaçam. O tom de verde que Orlando viu agora viciava sua rima e desfazia sua métrica. No mais, a natureza tem seus próprios truques.”



"Procurei a felicidade muitos anos e não a encontrei; procurei a fama e perdi-a; o amor, não o conheci; a vida - e eis que a morte é melhor. Conheci muitos homens e muitas mulheres", continuou, " não entendi nenhum. É melhor que fique aqui em paz, só com o céu por cima de mim."



Virginia Wolf


Igrejinha


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Nada me Disseram








Nada me disseram os teus olhos,
Naquele dia em que eu te revi.
Havia um rio bem no meio,
E nas margens, uma cidade.

Na cidade, ruas úmidas
Pelas quais nunca andarei...
Casas de janelas altas
Pelas quais nunca olharei.

Nada me disseram os teus olhos,
Quase não reconheci
O estranho que eu fitava
De quem nem me despedi.









terça-feira, 18 de outubro de 2016

Cântico VI








Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


Cecília Meireles




Quebrando Regras



Reza o bom-gosto que todas as louças sobre uma mesa tem que ser iguais. Assim como todos os copos e talheres, tudo pertencendo a um mesmo aparelho. 

Tem mesmo?

Mas ... e aquelas peças que sobraram dos aparelhos antigos que foram quebrando, ou as que ficaram de herança dos pais ou tias? Só porque elas não tem suas peças correspondentes, terão que ser legadas ao esquecimento, ou então condenadas a permanecerem enfeitando a cristaleira? Não! Coloque tudo na mesa!

Copos diferentes uns dos outros, xícaras, travessas  e pratos que pertenceram a vários aparelhos diferentes e talheres que não tem nada a ver uns com os outros, servem para quebrar o gelo da formalidade e criar mesas lindas e coloridas. Basta usar um pouco de imaginação. 

Sou absolutamente contra qualquer regra em uma casa. Casa tem que ter a nossa cara. Mais importante do que cumprir regras que mais parecem uma 'ditadura do bom-gosto,' cada um deve usar o que gosta, o que pode evocar lembranças de bons momentos ou de pessoas queridas que se foram. Por que não?




Por isso, quando eu era menina, adorava tomar café na casa da tia Rosa. Lá, as xícaras eram todas diferentes: cada uma mais linda e antiga que a outra, e eu podia sempre escolher qual xícara ou pires gostaria de usar. Optava quase sempre por uma branca de bolinhas vermelhas, redonda e bojuda. 




Quando me casei, eu tinha copos lindos, mas como não sou de guardar nada, eu usei-os todos, e eles foram quebrando. Um dia, peguei todos os copos que eram de conjuntos diferentes e doei. Hoje, eu me arrependo de ter seguido a regra ditatorial de que todos os copos sobre uma mesa devem ser iguais. 


Uma das vantagens de ter copos de cores e modelos diferentes, é que cada pessoa saberá qual é o seu, sem confundí-los com os de outra pessoa. 

Para mim, a única regra de uma casa deveria ser esta: use tudo o que gostar, sem se preocupar com o que os outros vão pensar ou com as convenções da moda e do bom-gosto. Casa é para ser feliz. É o único espaço do mundo onde você pode andar nú, cantar no banheiro, ficar de pijama o dia inteiro no final de semana, convidar quem você quiser... e usar louças diferentes em uma mesma ocasião.

O mesmo eu digo sobre lençóis, fronhas e colchas. E também sobre as cores das paredes. Gosto de um cômodo de cada cor. Certa vez, uma pessoa disse sobre minha cozinha: "Onde já se viu, cozinha de paredes vermelhas?" Sem hesitar, respondi: "Aqui em casa!"










segunda-feira, 17 de outubro de 2016

É MEU









É meu - tem meu cheiro, minha letra,
Meu estilo, minha escolha,
Minhas cores, meus olhares
-E eu sou possessiva.

Piso firme 
calcando os calcanhares
Nesse solo que conheço,
E que me pertence,
-E é meu.

Danço sobre as linhas virtuais e inexatas
Quase me arriscando a cair num abismo
Sem começo ou fim
De bits, megas, terabites,
Entre blogs e sites.

São minhas - e me pertencem totalmente
As palavras que aqui deito, e que deixo
À míngua, para morrer
Ou quem sabe, viver.

E se viverem,
É porque, na verdade,
Não mais me pertencem,
Mas a quem as escolher.





quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O GRITO – EM PRIMEIRA PESSOA UMA REFLEXÃO








O texto abaixo trata-se de uma reflexão baseada em meras observações – sobre mim mesma e sobre outras pessoas.







Por que eu grito?

Há vários motivos que podem fazer alguém gritar ao dirigir-se à outra pessoa. Cada um tem suas razões para gritar, mas estas razões tornam-se perdas logo após o grito: perda de bom senso, paciência, calma, autocontrole, justiça, caridade, compreensão, verdade, razão.

1- Eu grito porque me sinto frustrada. Alguém não está me escutando. Com certeza, quando chego a este ponto, já tentei várias outras formas de abordagem sem ter sucesso. Grito porque eu preciso que me ouçam, pois quem sabe, uma injustiça está sendo cometida contra mim, ou tenho algo muito importante a dizer que, se não for escutado, poderá trazer graves consequências para todos. Mesmo assim, quando eu grito por este motivo, perderei a razão e as pessoas virarão as costas para mim ainda mais rapidamente.

2- Eu grito porque eu fui ferido, magoado, machucado, e pretendo pagar tal pessoa na mesma moeda. Assim, acabo cometendo o mesmo erro que ela, me comportando da mesma forma destemperada, bestial e mal-educada.

3-Eu grito porque eu quero que não me ouçam. Isso mesmo! Eu grito porque existe algo dentro de mim que eu preciso disfarçar de alguma forma, e meu escândalo é a minha tática para que as outras pessoas não escutem meu segredo, e sim a minha mentira. 

4-Eu grito porque não tenho autoconfiança, e a voz elevada pode fazer com que as pessoas fiquem assustadas na minha presença, pensando no quanto eu sou temível, poderoso, superior. Na verdade, esse meu grito não passa de insegurança, medo, pavor. Grito para parecer forte e destemido. Grito porque não sei afirmar-me de outra forma. Sou um incompetente. 

5-Eu grito porque, de repente, as coisas tornaram-se pesadas demais, e meu peito está oprimido. Neste caso, meu grito não é dirigido a ninguém especificamente, mas é uma forma de desabafo, uma tentativa de aliviar o estresse, a opressão, o meu medo do futuro ou a minha incapacidade de lidar com todos os acontecimentos que estão em minha vida. 

6-Eu grito porque não quero escutar o que você tem a dizer, pois sua verdade me assusta. Ela me obriga a encarar meus próprios erros. Ela me coloca frente a frente comigo mesmo, e eu não consigo me olhar e me enxergar em suas palavras, pois sei que elas são verdadeiras. Grito para que você se cale. 

7- Eu grito de medo, porque preciso de ajuda. Meu grito é uma maneira de chamar a atenção dos outros sobre a minha pessoa, mas o efeito é totalmente contraproducente, pois muitas vezes, ao invés de obter a ajuda da qual necessito, acabo espantando quem poderia ajudar-me. 

E você? Por que grita?

Seja qual for o motivo, o grito é uma forma de agressão à outra pessoa. Na maioria das vezes, o grito perpetra uma grande injustiça, e demonstra, não o meu poder, mas a minha incompetência em dialogar.









segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Estou me expondo?










"Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida." – Graciliano Ramos





Quem não deseja expor-se, jamais poderia pensar em escrever alguma coisa. Todos que escrevem correm vários riscos, entre eles: cometer erros de gramática, parecer ridículo para quem lê, ser mal interpretado - e o mais mortal pecado de todos, expor a si mesmo. Porque quem escreve e não expõe a própria alma por medo do que os outros pensarão, nunca produzirá nada que valha a pena.

Em cada poema, em cada personagem de contos, em cada crônica, passeia o escritor. A grande confusão, é que muitas vezes a alma dele está ali, naquele personagem ou no eu-lírico de um poema, mas muitas vezes, o leitor pensa, equivocadamente, que a história daquele personagem é uma autobiografia. 

O personagem e o eu-lírico, como os filhos, carregam traços do escritor, mas não são ele, e nem sempre significam uma reprodução de sua vida pessoal. 

Imaginem se Stephen King, escritor de contos de terror, tivesse sua vida real representada em cada personagem que cria! Que tipo de pessoa ele seria? 

Quando, por exemplo, o poeta fala de solidão, apesar de ele estar colocando ali naquele poema seus sentimentos sobre ela, isto não significa que ele seja, necessariamente, um solitário. Ele pode estar falando de uma solidão real ou não. Um eu-lírico não é sempre uma representação da vida do autor, embora traga em si seus traços, vivências, observações sobre vivências alheias e opiniões suas e / ou de outras pessoas. 

Eu penso que o leitor precisa tomar muito mais cuidado ao ler do que o escritor ao escrever. Uma leitura malfeita e uma interpretação precipitada podem gerar comentários totalmente equivocados, e até mesmo, bizarros.



Graciliano Ramos









Pensamentos do autor Graciliano Ramos





"Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano."






"É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço."






"Quem escreve deve ter todo o cuidado para a coisa não sair molhada. Da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal."






"Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só."









"Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição."




"Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida."




Graciliano Ramos de Oliveira foi um romancista, cronista, contista, jornalista, político e memorialista brasileiro do século XX, mais conhecido por seu livro Vidas Secas.
Nascimento: 27 de outubro de 1892, Quebrangulo, Alagoas
Falecimento: 20 de março de 1953, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro






Há Flores Espirituais em Mim

Uma participação dedicada à amiga Rosélia, pelo oitavo aniversário de seu blog: Sinto que há flores espirituais em mim ...